OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE: DEMÉTRIO RIBEIRO – RJ (2012-2013)

Recentemente passei por uma experiência completamente diferente do meu cotidiano. Um trabalho de observação participante incrivelmente enriquecedor, vivenciando o cotidiano de uma comunidade familiar que produz o próprio sustento em um pequeno terreno no meio do nada, onde praticamente não existe influência externa de civilização, tecnologia ou recursos como energia elétrica ou saneamento básico.  Hoje eu gostaria de compartilhar um pouco disso com vocês.

Lá onde eu morava, em Demétrio Ribeiro (zona rural de Vassouras, no sul do Rio de Janeiro) era tão roça, mas TÃO roça, que o banheiro que tinha era uma fossa que ficava do lado de fora da casa, numa cabaninha de pau a pique.

Momentos de lazer: no breu da noite, alguns habitantes locais se divertem colocando fogo em pedaços de ‘BonBril’ e girando no ar.

Momentos de lazer: no breu da noite, alguns habitantes locais se divertem colocando fogo em pedaços de ‘BonBril’ e girando no ar.

Às vezes, no meio da noite, dava aquela vontade de ir na “casinha” e eu tinha que enfrentar a escuridão (às vezes até a chuva), no meio do mato até chagar nela. E ainda corria o risco de estar ocupado, porque era UMA casinha para as 57 pessoas que moravam no mesmo terreno. O que, aliás, dificultava muito a vida, era muita gente por metro quadrado, não havia infraestrutura e logística para sustentar todo mundo.

O que me faz lembrar que nas horas das refeições, havia um esquema em que cada um precisava ter um “parceiro de comida”. Funcionava mais ou menos, assim: as refeições eram servidas não individualmente, mas em um prato para cada dupla. Eu tinha que ser rápida, porque não havia nenhuma maneira de medir quanto cada um estava comento e sempre um lado acabava comendo mais.

Tomar banho também era uma tarefa complicadíssima. Primeiro aquecer a água naquele fogão a lenha, o que deveria ser feito com antecedência, pra água esquentar. E tinha que ficar vigiando, porque podia passar alguém e pegar a água e usar para outros fins. Depois tinha que desenterrar o sabão (que era feito de banha de porco e soda caustica) que ficava escondido, apara que outra pessoa não acabasse usando. Depois encher a tina de água e temperar para não ficar nem muito quente e nem muito fria. Enfim, era quase a parte mais cansativa do dia.

E tudo o que você tinha que fazer, deveria ser feito até as 22h, quando era desligado o gerador. Se não, tinha que fazer à luz de lampião ou vela. Pra usar o telefone era preciso caminhar por mais ou menos 2 horas, passando por uma pinguela, dois mata-burros, em um barranco até chegar num armazém onde pagávamos 5 reais ou uma galinha gorda para poder usar o telefone. Televisão e internet só uma vez por semana, pegando o caminhão pau-de-arara que ia parava na rodovia onde pegávamos o ônibus que ia até a cidade. Era assim também que fazíamos compras na farmácia, consultas médicas e resolvíamos os demais assuntos.

Paz, silêncio e ar puro: coisas que não se vê nas grandes cidades!

Paz, silêncio e ar puro: coisas que não se vê nas grandes cidades!

Fora todas as dificuldades, foi uma experiência significativa. Como antropóloga, eu devo dizer que me enriqueceu bastante. Além do mais é uma sensação ótima comer os legumes e verduras que eu mesma plantei e o frango que eu mesma criei, alimentei e degolei. Sinto que estou pronta para encarar novos desafios e ampliar cada vez mais os meus horizontes.

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Sobre Camila B Hassen

Comunista, socióloga, antropóloga e jornalista. Ateísta por convicção e Atleticana por paixão.
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